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  • quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

    150 anos de A Gênese: importância e fidedignidade

    150 anos de A Gênese: importância e fidedignidade

    Antonio Cesar Perri de Carvalho
    Entre as várias obras de autoria de Allan Kardec, com A Gênese completa-se o quinto volume das chamadas Obras Básicas da Codificação. Kardec discorre sobre questões importantes que destaca no subtítulo: os milagres e as predições segundo o Espiritismo; e analisa a Gênese de acordo com as leis da Natureza e a interpretação espírita.
    A edição da Revista Espírita de janeiro de 1868 anunciava que o livro A Gênese estaria à venda no dia 6 de janeiro de 1868. O exemplar desta Revista, de fevereiro de 1868 trazia uma dissertação do espírito S. Luís sobre a nova obra. Surgem notícias sobre novas edições: 2a edição (março de 1868); 3a edição (abril de 1868); e ao longo daquele ano Kardec transcreveu vários trechos dessa nova obra na Revista Espírita. Até a desencarnação de Kardec (1869), existiam quatro edições dessa Obra Básica.1,2
    A propósito das edições subsequentes à partida de Kardec é que surgem algumas dúvidas e polêmicas. Esta questão reapareceu durante reunião da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional, ocorrida em Bogotá (Colômbia), em outubro de 2017, com divulgação de carta do presidente da Confederação Espírita Argentina e consta a informação de que teria sido motivação de um questionamento em um momento da reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB, em novembro de 2017.
    A dúvida reinante é sobre a fidedignidade da versão francesa que serviu de base para as traduções de A Gênese. Já existiam várias controvérsias, mas agora reaparecem principalmente a partir da recente edição de A gênese, pela Confederación Espiritista Argentina, com tradução realizada por Gustavo N. Martínez, a partir da 1a edição francesa, lançada aos 6/01/1868.3
    A propósito, são foram louváveis as providências do presidente da Confederação Espírita Argentina em levar a questão ao CEI, conforme trecho de sua carta, onde registra que: “esclarecer a grave questão, o presidente da CEA solicitou uma pesquisa à sra. Simoni Privato Goidanich, e que foi realizada pessoalmente nos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, localizadas em Paris, assim como na própria C.E.A. e na Associação Espírita Constancia, de Buenos Aires.”[*] O presidente da instituição prossegue: “Esta pesquisa resultou no livro El Legado de Allan Kardec, editado pela CEA [...] que demonstram que o conteúdo definitivo de  La genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme é o do único exemplar que foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França e que, portanto, o mestre jamais modificou esse conteúdo, publicado em 1868.”4
    O livro El legado de Allan Kardec, de autoria de Simoni Privato Goidanich, foi lançado na sede da C.E.A., em Buenos Aires, aos 3/10/2017.5
    Henri Sausse, o principal biógrafo de Kardec e dinâmico líder espírita francês, em artigos – um deles intitulado “Uma infâmia” - publicados no jornal Le Spiritisme, em 1884 e 1885, já levantava questões sobre as adulterações na 5a edição de A Gênese e apontou 126 alterações no texto original.5
    Entre muitos estudiosos há a suspeita de que alguns trechos de A Gênese poderiam ter sido alterados provavelmente por Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901). Este dirigente, com a desencarnação de Kardec, passou a exercer as funções de redator-chefe e diretor da "Revue Spirite" (1870 a 1901) e gerente da "Librairie Spirite" (1870 a 1897). Consta que, na prática, exerceria muita influência na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cuja presidência era formalmente ocupada pelo Sr. Vautier; e passou a cuidar das edições e autorizações de traduções de obras de Kardec.2 E Leymarie foi presidente da “Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”.6
    Como ilustração histórica dessas autorizações há o caso brasileiro das traduções pioneiras das obras de Kardec. No princípio do ano de 1875, Pierre-Gaëtan Leymarie autorizou em carta ao dr. Joaquim Carlos Travassos a tradução das obras de Allan Kardec para o português. Essa missiva foi publicada na íntegra na Revista Espírita, edição de 1875. Joaquim Carlos Travassos (1839-1915) traduziu para o português quatro obras básicas da Codificação, com exceção de A Gênese, em 1875 e 1876, utilizando o pseudônimo de "Fortúnio". As quatro obras foram publicadas pela Editora B. L. Garnier, do Rio de Janeiro.6 Em biografia sobre o tradutor Travassos, Zêus Wantuil comenta: “[...] a única coisa de interessante a anotar, sem nos referirmos ao bom estilo do tradutor, é o judicioso esclarecimento, de fundo rustenista, que vem na obra ‘O Céu e o Inferno’...”6
    Leymarie teve intensa atuação na França. A 1ª edição da revista Reformador, de janeiro de 1883, noticia que ele representou a França em congresso ocorrido em Bruxelas, objetivando a criação de uma União Espiritualista Universal.7 Há correspondências de Leymarie com a então novel Federação Espírita Brasileira.
    A ação de Leymarie foi polêmica, inclusive foi envolvido no histórico “processo dos espíritas”, relacionado com exploração das chamadas fotos de espíritos, em que foi condenado. Muitos registros constam em livro histórico e esgotado de Berthe Fropo - Beaucoup de Lumière -, uma espírita atuante, fiel aos ideais de Allan Kardec, muito amiga de Amélie Boudet, vizinha e apoiadora desta depois da desencarnação do codificador do Espiritismo.2 No ano de 2017 o citado livro foi traduzido e disponibilizado em edição digital bilíngue: a tradução em português e o original em francês - Beaucoup de Lumière (1884).
    Berthe Fropo aborda o ponto crucial do desvirtuamento doutrinário ocorrido no movimento espírita francês pós-Kardec, comprometendo a continuação das obras do Codificador da Doutrina. Nessa obra histórica fica evidenciado que “com o aval de Amélie Boudet, Gabriel Delanne e Berthe Fropo se lançaram numa investida para reavivar os planos de continuação das obras de Kardec, que nas mãos de Leymarie haviam sido deturpados, por influência de ideologias outras, como o roustanguismo e — ainda mais fortemente — a mística doutrina da Teosofia de Madame Blavatsky e do Coronel Olcott.”2
    Portanto, há indícios para haver suspeitas sobre eventuais alterações promovidas por Leymarie em itens de A Gênese.
    Isso posto, citaremos apenas um item da citada obra em apenas algumas traduções para o português.
    A tradicional edição de A Gênese, traduzida por Guillon Ribeiro (FEB) a partir da 5a edição francesa de 1872, não traz nenhuma informação adicional.8 A edição do Instituto de Difusão Espírita, traduzida por Salvador Gentile, utiliza a mesma edição francesa adotada por Guillon Ribeiro.9
    Na edição da FEB, traduzida pelo Evandro Noleto Bezerra, também a partir da 5a edição francesa de 1872, o tradutor introduz uma nota de rodapé no item 67 do capítulo XV, anotando que há uma diferença com relação à edição de 1868, com Kardec ainda encarnado. Justifica que “ao revisar a obra com vistas à 4a edição, Allan Kardec houve por bem suprimir o item 67 que constava nas edições anteriores”. Nessa nota de rodapé, de número 124, o tradutor Evandro transcreve o item suprimido em outras versões “pelo seu inestimável valor histórico, o item 67 das três primeiras de edições de A Gênese”.10
    Na edição do Centro Espírita Léon Denis, a tradutora Albertina Escudeiro Sêco, se baseia numa 4a edição francesa, de 1868, e introduz o item 67 original, a saber:
    “67. A que se reduziu o corpo carnal? Este é um problema cuja solução não se pode deduzir, até nova ordem, exceto por hipóteses, pela falta de elementos suficientes para firmar uma convicção. Essa solução, aliás, é de uma importância secundária e não acrescentaria nada aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de uma maneira bem peremptória, sua superioridade e sua missão divina. Não pode, pois, haver mais que opiniões pessoais sobre a forma como esse desaparecimento se realizou, opiniões que só teriam valor se fossem sancionadas por uma lógica rigorosa, e pelo ensino geral dos espíritos; ora, até o presente, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle. Se os espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade dos seus ensinamentos, é porque certamente ainda não chegou o momento de fazê-lo, ou porque ainda faltam conhecimentos com a ajuda dos quais se poderá resolvê-la pessoalmente. Entretanto, se a hipótese de um roubo clandestino for afastada, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (O Livro dos Médiuns, caps. IV e V.).” E, naturalmente faz uma renumeração, surgindo o item 68 que, nas outras tradições citadas é o item 67.11
    Dessa maneira, são pertinentes os recentes questionamentos surgidos nas acima citadas reuniões. Companheiros do “Le Mouvement Spirite Francophone” confirmaram-nos no final de 2017 que a primeira impressão da 5a edição, revisada, ocorreu em 1872, e verificou-se que muitos trechos foram eliminados da quarta para a quinta, inclusive no capítulo sobre o corpo de Jesus.
    Ao ensejo dos 150 anos de lançamento de A Gênese, seria de fundamental importância o esclarecimento sobre algumas dúvidas que pairam sobre as versões editoriais da significativa obra de Allan Kardec e a tradução para o português do exemplar de 1868, registrado na Biblioteca Nacional da França.


    Referências:

    1) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. Revista Espírita. Ano XI. No. 1. 1868. Rio de Janeiro: FEB.

    2) Fropo, Berthe. Trad. Lopes, Ery; Miguez, Rogério. Muita luz. 1.ed. Edição digital: www.luzespirita.org.br; acesso em novembro de 2017.

    3) Kardec, Allan. Trad. Martínez, Gustavo N. La génesis. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina. 2017.

    4) Carta do presidente da Confederación Espiritista Argentina, Sr. Gustavo N. Martínez, de 14/10/2017, distribuída em reunião do Conselho Espírita Internacional, em Bogotá (Colômbia).

    5) Goidanich, Simoni Privato. El legado de Allan Kardec. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina, 2017. 440p.

    6) Wantuil, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. 1.ed. Cap. Joaquim Carlos Travassos. Rio de Janeiro: FEB. 1969.

    7) Reformador, Ano I, n.1, 21 de Janeiro de 1883, p.1-4.

    8) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. A gênese. 1.ed. Cap. XV. Item 67. Rio de Janeiro: FEB. 1977.

    9) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. A gênese. 1.ed. Cap. XV. Item 67. Rio de Janeiro: FEB. 2010.

    10) Kardec, Allan. Trad. Gentile, Salvador. A gênese. 53.ed. Cap. XV. Item 67. Araras: IDE. 2008.

    11) Kardec, Allan. Trad. Sêco, Albertina Escudeiro. A gênese. 3.ed. Cap. XV. Itens 67-68. Rio de Janeiro: Ed. CELD. 2010. 


    (Publicado na Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCII, edição de fevereiro de 2018, p.21-23)



    [*] Nota: trata-se da tradicional e histórica Asociación Espiritista Constancia, fundada em Buenos Aires no ano de 1877. Os trechos da carta foram traduções livres feitas pelo articulista.

    quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

    Perguntar não ofende. Quem poderá responder? (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen
    Jorgehessen@gmail.com

    Por que a Federação “espírita” brasileira – instituição que aparelhou no ambiente espírita um sistema de cúpula com evocação de infalibilidade, sendo a coordenadora da propalada “unificação” do movimento “espírita” brasileiro, promove nas suas instalações (Av. Passos/RJ e L 2 Norte/DF), sempre às terças feiras , a “centenária” contraditória e inexplicável reunião pública de estudo da obra antidoutrinária “Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing ?

    Por que existe e é conservada nos dispositivos do estatuto da afamada Feb a cláusula “pétrea” no “parágrafo único’ do art. 1º , cuja ordem jurídica estabelece os mandatórios “estudos e difusão da obra de J.B. Roustaing”?

    Como é simples de concluir, o citado órgão “unificador” é estatutária e oficialmente adepto e divulgador do ideário docetista,  que nada mais é do que a crendice no ridículo Cristo APARENTE e VAPOROSO.

    A direção da Feb, durante o ano de 2016, planejou fazer uma homenagem ao livro “ Os Quatro Evangelhos” de J.B.Roustaing, para glorificar o sesquicentenário do agourento livro. Sabendo disso, soltamos um brado de  alerta e, juntamente com os clamores atentos de alguns escritores espíritas, delatamos publicamente a empreitada. Deu resultado, pois a programação da “edição especial” foi temporariamente “abortada” pelo afamado órgão “unificador”. Todavia soubemos “nos bastidores” que a obra está finalizada e revisada desde 2015, mas está sendo mantida de “quarentena”, por enquanto (?!!...) Até quando?  

    Aproveitando o ensejo, reafirmamos que urge ser revista a condução do movimento espírita, quase sempre infligida pela cúpula dos “órgãos oficiais”, mormente através da programação e implantação de folhetos e temas apostilados, visando implantação de cursos teóricos muito extenuantes, propondo fadigosos conteúdos doutrinários.

    Por que a editora do afamado órgão “unificador” , docetista por injunção estatutária,  possui diversos títulos de livros supostamente espíritas que vem abastecendo o achocalhado movimento espírita com mensagens “voláteis” e ideias ardilosas, separatistas e antidoutriárias de J.B. Roustaing?

    Dentre os inúmeros títulos e autores de livros com princípios docetistas (editadas pelo afamado órgão “unificador”), listamos alguns abaixo, visando informar e alertar que o roustaguismo não morreu e nem foi enterrado no Brasil e infelizmente permanecerá por longo tempo enquanto existir o afamado órgão “unificador”.

    Na qualidade de professor de História sinto-me na obrigação de apontar e elencar algumas obras editadas pela editora da  Feb que têm embaraçado a compreensão das obras de  Kardec ante a cognição dos neófitos e até alguns veteranos.

    Eis uma lista de literatura facciosa ,portanto  danosa para a melhor compreensão da Codificação kardequiana:

    “Grande espíritas do Brasil” (Zeus Wantuil); “Vida e obra de Bezerra de Menezes” (Sylvio Brito Soares); “Ide e pregais” (Newton Boechat); “O espinho da insatisfação” (Newton Boechat); “No oásis de Ismael” (F. Thiesen ); “Allan Kardec volumes 2 e 3” (Thiesen e Zeus Wantuil); “Universo e vida” (Hernani t. Sant’anna); “Grande vultos da humanidade e o espiritismo” (Sylvio Brito Soares); “Síntese do novo testamento” (Minimus); “Antônio de Pádua” (Almerindo Martins de castro); “O martírio dos suicidas” (Almerindo Martins de castro); “A caminho do abismo” ( Antônio Lima); “Estrada de damasco” ( Antônio Lima); “Vida de jesus” (Antônio Lima); “Elucidações evangélicas” (Antônio Luiz Sayao); “Elos doutrinários” (Ismael Gomes Braga); “Irmãos de Jesus” (Krueger Mattos); “O livro de Tobias” (Ismael Gomes Braga); “O Cristo de Deus” (Manuel Quintão); “A divina epopeia” (Francisco Leite de Bittencourt Sampaio); “Do calvário ao apocalipse” (Frederico Pereira da Silva Junior); “Jesus perante a cristandade” (Frederico Pereira da Silva); “Jesus, nem Deus nem homem” (Guillon Ribeiro) . Poderia ainda citar “Brasil coração do imundo...” que avalio ser obra adulterada; “Testemunho de Chico Xavier” que contém adventícios trechos roustanguistas e a célebre interpolação ideológica sobre a tal “Evolução em linha reta de Jesus”,  contida na obra “O Consolador”.

    Por que a afamada Feb não consegue sustentar a fidelidade à Codificação?

    Por que os “fiéis” diretores das federativas estaduais não se organizam mirando  a fundação de uma Confederação espírita brasileira , estruturada em nova composição “unificacionista” e de união ?

    A USE União das sociedades espíritas de São Paulo possui uma sede  bem modesta e coordena o movimento espírita do estado inteiro, logo a sede da Confederação espírita poderia ser em instalações humildes, sem luxo e sem a monumental ostentação da soberba sede da Feb em Brasília.


    Pensemos nisso.

    domingo, 21 de janeiro de 2018

    Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec

    Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec

    Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec

    Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec

    sábado, 20 de janeiro de 2018

    O espírita não pode ser “miragaia de presépio” (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen

    Será que Kardec algum dia imaginou que no futuro no Brasil surgiria um padrão de divulgação do espiritismo tão estranho e extravagante? Aqui os palestrantes vão se tornando cada vez mais santificados e adorados pela liturgia mística de ingênuos seguidores “espiritas”.
    Tais idólatras espargem ares de ingenuidade e vão abarrotando os indigentes e onerosos congressos espíritas, realizados não por acaso nos amplos centros de convenções, a fim de que haja superávit financeiro tendo em vista a mantença do poder da liderança do movimento espírita tupiniquim.
    O tema é recorrente. Empregamos aqui algumas expressões agudas, sabemos disso, porém a postura crítica é fundamental para o desenvolvimento da racionalidade espírita em sua difusão. Sabemos que jamais se aprenderá espiritismo por catequese como ocorre nas religiões tradicionais, nem mesmo por meio de espaçosos cursos (com o uso de apostilas intuído pela FEB) e palestras repetitivas onde o público “ouve” ou “escuta” passivamente.
    Espiritismo se aprende pelo método ativo, através do amplo diálogo em que os diversos debates doutrinários, psicológicos, morais, científicos, sociais são discutidos e confrontados com as hipóteses propostas pelos espíritos nas obras de Allan Kardec. Aliás, um congresso espírita, para ser produtivo deveria ter este desígnio.
    Basta de idolatrias! O espírita não deve agir qual “vaquinha de presépio”, aceitando “verdades” individuais elencadas por endeusados oradores, pois cada espírita precisa descobrir-se, conhecer a si mesmo e buscar estudar os conceitos que lhe chegam para depois compará-los com os princípios dos Espíritos.
    Essa deve ser a postura zelosa do espírita prudente e racional, que busca compreender, para só depois aceitar, se assim o almejar (ou não) as “verdades”empacotadas pelos livros e compactadas pelos bramidos dos ilustres palestrantes.

    sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

    Um pouco de luz



    Autora: Berthe Fropo

    Tradução: Rogerio Migoez (rogcedm@yahoo.com.br)

                   Eu li na Revista Espírita do mês de setembro, um artigo intitulado "AOS NOSSOS LEITORES" vindo da Administração da sociedade para a continuação das obras de Allan Kardec, que não passa de uma exagerada e tardia glorificação do mestre. Desde junho, a sociedade permitiu insultá-lo, criticá-lo e se dignou a dar asilo em sua Revista a dois de meus artigos, quando ela deveria ter sido a primeira a defender o homem a quem ela deve tudo, o escritor, o moralista fora de série que mais tarde fará a glória da França e a felicidade da humanidade.
                   Diz a página 402:
                   "Sim, defender Allan Kardec, ser seu advogado e defender sua causa, seria uma enganação. Porque ele não precisa de protetores, nem de bons dialogadores, ou artigos sensacionalistas para ser respeitado e reverenciado."
                   Mas eu presumo que ele não precisa também de caluniadores ou de panfletos sensacionalistas, tão perigosos como falsos, e que não são para todo espírita sério mais do que balões de ensaio, cuja indignação geral fez justiça1.
                   Eu também perguntaria à Sociedade por que decidiu por unanimidade, em uma assembléia geral, que o antigo título "Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec" fosse renomeado no futuro para Sociedade Científica do Espiritismo. Por que essa evolução? O que se pretendia fazer, removendo o nome do fundador, o mestre que vocês diziam ser tão respeitado e tão venerado. Em nome de todos os meus irmãos de crença, venho pedir-lhe o motivo; essa evolução é muito grave para que não tenhamos a explicação.
    O nome de Allan Kardec significa comunicação dos espíritos, demonstrada de forma irrefutável, reencarnação e o progresso indefinido do espírito.
                Sociedade científica do Espirtismo não significa nada e testifica uma imensa pretensão. Parece que estamos questionando os princípios que exigiram trinta anos de estudos cuidadosos até serem admitidos. Onde estão os sábios que devem formar a nova organização? Que tipos de experiências serão entregues? Quanta confiança haverá nas demonstrações daqueles que têm um prestigitador como garantia? Tudo isso é lamentável, e vocês se dizem os discípulos sérios e judiciosos de Allan Kardec? Vocês dificilmente o demonstram.
    Gostaria também de lembrá-los que o Sr. Allan Kardec pretendia fazer de uma parte de sua propriedade, um asilo para os espíritas idosos (Desejo que ele expressou no projeto de constituição do Espiritismo - Revista de 1868, páginas 375 e 387 - e sobre o qual ele falou comigo muitas vezes).
                   Agora venho, em nome do meu amigo tão lamentado, exigir a execução de seus desejos, à Sociedadde anônima, exceto pelo interesse variável do fundo geral e central do Espiritismo fundado2 pela Sra. Allan Kardec, por ato em 3 de julho de 1869, perante um notário de Paris, Sociedade para a propagação das obras de Allan Kardec.
                   Esta propagação não pode ser eficaz, a menos que os livros do mestre sejam baratos, foi o desejo de sua viúva, ela se impôs, apesar de sua adiantada idade, as mais difíceis privações, de modo a deixar uma fortuna real para o Espiritismo, aceitando comprometer sua saúde, já tão delicada, e ser tratada como uma avarenta para alcançar o objetivo que ela propôs a si mesma: o de divulgar a instrução moral e intelectual entre os seguidores pobres do Espiritismo, para ver crescer a obra de seu marido.
    1 Veja o artigo do Tempos de 15 de agosto.       
    2 Título de fundadora que lhe foi negado em sua morte nos documentos fúnebres.

                   Ela deixou, além de sua propriedade, cujo terreno vale 300 mil francos, trinta e dois aluguéis, que dão uma renda anual de 8 a 10 mil francos; e uma quantia considerável de valores para pagar todas as despesas do inventário.
                   A Sociedade anônima é, portanto, rica, pois já tinha 40 mil francos deixados pelo Sr. Allan Kardec quando de sua morte, mais 25 mil francos de uma casa de campo, legado de um espírita cujo nome eu não lembro; e, finalmente, os 100 mil francos doados pelo Sr. J. Guérin, o executor testamentário de J.-B. Roustaing e seu discípulo: um total de 460 mil francos, sem mencionar os lucros realizados desde a fundação.
                   Parece-me que agora é a hora de baixar o preço dos livros, especialmente porque uma edição de 2.000 cópias custa:
    Para o papel............ 800 francos.
    Para o impressor...... 533    ─
    Para o encadernador. 144    ─
    TOTAL ..................1477   ─
                   O que coloca cada volume ao custo de 80 centavos, que a livraria nos faz pagar 3 francos. Esta nota me foi dada pela Sra. Allan Kardec algum tempo antes de sua morte.
                   Como vocês tem apenas uma ambição, a de serem trabalhadores, coloquem-se a trabalhar, respeitem a vontade dos dois fundadores do Espiritismo; pelas ações são julgados os homens, e não por suas palavras. Sejam gratos, devotados, altruístas, e quando vocês nos provarem por seus esforços e ações que vocês são os vigilantes guardiões do trabalho espírita em sua integridade, acreditem que terão adquirido o carinho e a estima de todos seus irmãos em fé, e teremos o prazer de fazer apenas uma grande família, caminhando sob o estandarte:
    Fora da caridade não há salvação.
     B. Fropo
     Vice-presidente da União espírita Francesa.

    quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

    Fatos pós-Kardec na França e as primeiras edições francesas de A Gênese - Resenha do livro El legado de Allan Kardec


    Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

    Oportuna e meticulosa pesquisa, o livro El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich foi lançado na sede da Confederação Espírita Argentina, em Buenos Aires, aos 3/10/2017. O livro foi redigido em espanhol; contém 440 páginas, em formato 21X14cm, e ilustrações de dezenas de documentos franceses. Editado pela Confederación Espiritista Argentina, com distribuição pela Amazon (amazom.com). 

    A autora Simoni Privato Goidanich é brasileira, bacharel em Direito e Mestre em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP; atua como Diplomata; recebeu prêmios e frequentou na Harvard University. A serviço do governo brasileiro, já residiu nos Estados Unidos, no Uruguai e no Equador. Nos países onde tem residido, dedica-se ao trabalho no movimento espírita. Autora de artigos publicados em periódicos espíritas e dos livros: El legado de Allan Kardec; Divulgación del Espiritismo: Enseñanzas del ejemplo de José María Fernández Colavida; Mediumnidad y Pases: Preguntas y Respuestas; Oratoria a la Luz del Espiritismo; coautora do livro Pases a la Luz del Espiritismo. Organizadora e tradutora da trilogia Revista Espírita - Periódico de Estudios Psicológicos: Colección de Textos de Allan Kardec. Apresentadora do programa Reflexiones Espíritas, da Rádio Bezerra Online, de Miami (EUA). Reside atualmente em Montevidéu, Uruguai, com seu marido, que também é diplomata. Atua no Centro Espírita Redención e colabora com a Federación Espírita Uruguaya.

    A apresentação do livro foi redigida por Gustavo N. Martínez, presidente da Confederação Espírita Argentina, tradutor para o espanhol de várias obras espíritas e inclusive de A Gênese, de Allan Kardec, com base na 1a edição francesa de 1868, editada pela C.E.A. no final do ano de 2017.

    Simoni Privato Goidanich esteve pessoalmente em Paris acessando documentações oficiais e também na histórica Associação Espírita Constancia, de Buenos Aires, que funciona desde 1877. A autora faz um meticuloso levantamento em documentos dos Arquivos Nacionais da França e da Biblioteca Nacional da França, reproduzindo significativas páginas dos mesmos, tendo por foco o livro A Gênese e instituições como a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, da sua sucedânea, a Sociedade Científica do Espiritismo, e, da então nascente União Espírita Francesa. Além dos documentos oficiais e de Atas, a autora faz sistemáticas citações da Revista Espírita (do período administrado por Kardec e dos anos seguintes), da revista Le Spiritisme, órgão da novel União Espírita Francesa, e de obras de Allan Kardec. Simoni cita muitas vezes o livro Beaucoup de Lumière (1884), de Berthe Fropo, atualmente disponibilizado em edição digital bilíngue: a tradução em português e o original em francês. Trata-se de espírita atuante, fiel a Kardec, e, amiga, vizinha e apoiadora de Amélie Boudet. 

    O livro de Simoni se divide em duas partes. Na primeira parte são tratados assuntos sobre momentos significativos dos 10 anos após o lançamento de O livro dos espíritos; os papéis desempenhados por Léon Denis e Gabriel Delanne no movimento espírita francês e o relacionamento de ambos com Kardec; todos os episódios sobre o lançamento e as primeiras edições francesas de A Gênese; e a desencarnação do Codificador. 

    Na segunda parte, a autora trata de questões legais sobre o nome e o pseudônimo de Kardec; a fundação da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec; comenta o chamado “o ano terrível” (1872), relacionado com o lançamento da 5a edição de A Gênese designada como “revisada, corrigida e aumentada”; o “processo dos espíritas”; os cerceamentos inflingidos à sra. Allan Kardec e sua desencarnação; a queima de arquivos e documentos da viúva de Kardec; o alerta do biógrafo de Kardec, Henri Sausse – “Uma infâmia” – apontando 126 alterações de texto na 5a edição de A Gênese; as nefastas deturpações executadas por Pierre-Gaëtan Leymarie em instituições e na Revista Espírita; as lutas e propostas renovadoras de Gabriel Delanne e León Denis e a fundação da União Espírita Francesa, em 1882.

    No livro em análise ficaram evidentes as alterações de propósitos da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, depois transformada por Leymarie em Sociedade Científica do Espiritismo, e, também na linha editorial da Revista Espírita. Sobre esta revista fundada por Kardec, anota a autora Simoni que sob a direção de Leymarie: “as páginas estavam cada vez mais ocupadas com artigos sobre teosofia [...] Estabeleceu-se um vínculo da Sociedade Teosófica com a Sociedade de Estudos Psicológicos e a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”.

    O livro de Simoni Privato Goidanich comprova que a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, dirigida por Leymarie, passou a ser dominada economicamente pelo acionista Jean Guérin, um grande proprietário, ex-dirigente político do departamento de Gironda (sendo Bordéus a capital), admirador e apoiador de J.B.Roustaing. O apoio financeiro de Guérin à Sociedade Anônima gerou a hipoteca dos bens da Sociedade e dos imóveis doados por Allan Kardec. Anos depois, tudo foi perdido por ação movida por herdeiros de Guérin. Um fato tormentoso neste ínterim foi a ampla circulação de um panfleto de divulgação da obra de Roustaing, defendido pela então direção da Revista Espírita, provocando forte reação dos amigos e defensores do legado de Kardec, inclusive Gabriel Delanne, Léon Denis e Berthe Fropo. 

    Dentro desse contexto de deturpações e polêmicas, as edições francesas de A Gênese, a partir da 5a edição de 1872 (aquela “revisada, corrigida e aumentada”) é que foram autorizadas para traduções em diversos países, por Leymarie, então dirigente da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec. A autora Simoni mostra que o pioneiro e líder espanhol José María Fernández Colavida traduziu e publicou a 2a edição de A Gênese, de 1868, em Barcelona (Espanha), mantendo-se fiel à edição de Kardec.

    Simoni comprova que até a desencarnação de Kardec ocorreram quatro edições de A Gênese. Na meticulosa pesquisa registrada e comentada no livro El legado de Allan Kardec, Simoni Privato Goidanich provou que um único exemplar de A Gênese, publicado em 1868, foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Para a autora, esta edição é a definitiva e o Codificador não teria modificado o conteúdo. Entre outros fatos, a autora destaca o cuidado da época com que o Ministério do Interior fiscalizava as publicações, pois a França vivia momentos políticos tensos durante o reinado de Napoleão III.

    O livro El legado de Allan Kardec tem riquíssimo valor histórico e é restaurador de importantes episódios que se encontravam encobertos. No final, registra Simoni Privato Goidanich: “A responsabilidade ante o legado de Allan Kardec é de todos os espíritas, e cada um herdará as consequências de seus atos e de suas omissões”.

    Em nossa opinião o novo livro El legado de Allan Kardec reúne preciosas informações e documentação sobre as primeiras décadas em seguida à desencarnação de Allan Kardec, sendo um rico repositório da história do movimento espírita francês.

    (Goidanich, Simoni Privato. El legado de Allan Kardec. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina, 2017. 440p.)

    (*) Foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

    Fonte: Publicado originalmente na Rede Amigo Espírita – Disponível em http://www.redeamigoespirita.com.br/profiles/blogs/fatos-p-s-kardec-na-fran-a-e-as-primeiras-edi-es-francesas-de-a-g acesso em 04/01/2018