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  • quinta-feira, 31 de julho de 2014

    A REEDUCAÇÃO SOLIDÁRIA DOS APENADOS (Jorge Hessen)

    Jorge Hessen
    http://aluznamente.com.br

    A finalidade da lei correcional não é punir puramente, entretanto igualmente possibilitar a recuperação do criminoso. Para os especialistas do assunto, a pena é uma resposta punitiva estatal contra um determinado crime e deve ser proporcional à extensão do dano, jamais poderá violar a dignidade humana, pois estaria reparando um erro com outro erro. A punição por si só não muda o comportamento transgressor do ser humano socialmente opresso, é preciso reeducá-lo para que possa compreender a importância da liberdade. 
    O adolescente marginalizado é, quase que invariavelmente, vítima de desigualdade social, pois que não tem renda suficiente para usufruir de bens e serviços básicos, como saúde, educação, habitação e lazer. Situações determinantes para que o jovem se torne revoltado ou ansioso por experimentar o que da vida lhe é suprimido. Para tais adolescentes, o melhor recurso é o processo de ressocialização; não com vistas à repreensão judicial, mas à reinserção desse jovem infrator na sociedade que ele mesmo rejeitou. Por essa razão  é auspicioso os programas de reeducação desses jovens que tendem aproveitar as oportunidades que algumas  instituições de ressocialização lhes proporcionam.  
    No Brasil existem algumas empresas que agem semelhante  a certa rede de supermercados que oferece emprego e orientações a esses adolescentes. A rede mantém um programa intitulado de “Gente de Futuro”,  propondo formar os jovens para o mercado de trabalho, oferecendo apoio às suas famílias. O programa é executado em parceria com a Fundação Casa (antiga FEBEM)  para recrutar e contratar jovens que ainda cumprem, ou já cumpriram medidas socioeducativas, para atuarem nos supermercados. (1)
    A lógica do amor diz que  os mais conscienciosos devem ajudar os mais atrasados, os mais inteligentes aos menos dotados intelectualmente, o maior ao menor, e assim por diante, inoculando, portanto no tecido social a vacina do Evangelho ao próximo. O menor infrator, portanto, deve ser alvo dessa intensa providência socioeducativa  e de outros  recursos psicoterapêuticos, para o seu regresso ao bom convívio social.
    A reeducação de qualquer delinquente pode ser feita por meio da implantação de frentes de trabalho para profissionalização, como vimos acima, não apenas para tirar criminosos apenados da ociosidade, porém igualmente abrir perspectiva de integração futura na sociedade. Nesse sentido reverenciamos os grupos de várias denominações religiosas  que desenvolvem excelentes projetos de recuperação do encarcerado, por intermédio de uma efetiva programação de visitas permanentes aos centros de reclusão. Tais religiosos promovem palestras de valorização humana, divulgação doutrinária, instituição de voluntários padrinhos, contato com parentes, distribuição de cestas básicas para familiares dos recuperandos,  objetivando a o aumento do índice de recuperação dos internos nos presídios brasileiros.
    Há dois mil anos o Mestre forneceu importantes convites sobre esse trabalho. Recordemos Suas considerações sobre a prática de um sublime código de caridade, ante as questões da vida dos criminosos: "Senhor, quando foi que te vimos preso e não te assistimos?". Ao que Ele respondera: "Em verdade vos digo - todas as vezes que faltastes com a assistência a um destes mais pequenos. deixastes de tê-la para comigo mesmo." (2)
    Somente a experiência do Evangelho pode estabelecer as bases da concórdia, da fraternidade e constituir os antídotos eficazes para minimizar a violência que ainda avassala a Terra. Na verdade, o homem cresce e se expande na medida em que se projeta no coração do semelhante. Assim, a realização de qualquer investimento de solidariedade, ante os presos de menor ou maior periculosidade, se consubstanciará no mais eloquente ato cristão.
    A sentença   “perdoar setenta vezes sete vezes” proferida por Jesus precisa ser aplicada ao limite máximo das nossas experiências cotidianas. Os Benfeitores Espirituais nos instruem que devemos “amar os criminosos como criaturas que são, de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem, como também a nós, pelas faltas que cometemos contra sua Lei.”.(3) Em muitos casos  somos “mais repreensíveis, mais culpados do que aqueles a quem negamos perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles não conhecem Deus como O conhecemos, e muito menos lhes será pedido do que a nós.”(4)

    Referências bibliográficas:
    1 Disponível em http://sonoticiaboa.band.uol.com.br/noticia.php?i=5137 acesso em 18/07/2014
    2 Mateus 25.31-46
    3 Kardec, Allan . O Evangelho Segundo O  Espiritismo. Cap. XI “Amar o próximo como a si mesmo - Caridade para com os criminosos”, RJ: Ed FEB, 1990
    4 Kardec, Allan . O Evangelho Segundo O  Espiritismo. Cap. XI “Amar o próximo como a si mesmo - Caridade para com os criminosos”, RJ: Ed FEB, 1990

    sábado, 26 de julho de 2014

    IGUALDADE E DESIGUALDADE SOCIAL DO PONTO DE VISTA REENCARNACIONISTA (Jorge Hessen)

    Jorge Hessen 
    http://aluznamente.com.br

    Acompanhamos pela Internet, através das redes sociais, os legítimos clamores populares em face do atual cenário político brasileiro. Observa-se pujante manifesto de reproche da massa, considerando os caminhos obscuros que representam para o futuro da Pátria do Evangelho o presumível hasteamento da bandeira afogueada do ideário extremista. O inconsciente coletivo está provido de fatos históricos contemporâneos em cuja ribalta a “universal” flâmula rubra do absolutismo materialista foi desfraldada sobre os entulhos cadavéricos de milhões de cidadãos chineses , soviéticos, cubanos,  norte-coreanos, trucidados nos últimos 50 anos.  
    Nos dois últimos séculos a violência ideológica engendrou o cenário vastíssimo de lutas inglórias. Todas as ciências sociais têm sido solicitadas para os grandes debates sobre o capitalismo e o comunismo. O Espiritismo se apresenta na discussão a fim de encorajar a luta pela paz, a fim de que não se perca os bons frutos dos que trabalharam e padeceram no esforço penoso da harmonia de todos. Com as comprovações da sobrevivência, o Espiritismo vem reabilitar o Evangelho, esparzindo, igualmente, os perenes preceitos do Mestre de Nazaré na intimidade do coração humano. 
    Sob o pilar da reencarnação, a Doutrina dos Espíritos elucida a incoerência das teorias do igualitarismo [comunismo], coopera no reparo do adequado caminho da evolução social. Emoldurando o socialismo nos apelos cristãos, não se deslumbra com as reformas exteriores, para rematar que a excepcional renovação considerável é a do homem interior, célula viva do organismo social de todos os tempos, pugnando pela ativação dos movimentos educativos da criatura, à luz eterna do Evangelho do Cristo. 
    O Espiritismo anuncia o regime da responsabilidade, em que cada Espírito deve enriquecer a catalogação dos seus próprios valores. “Não se engana com as utopias da igualdade absoluta [comunismo], em vista dos conhecimentos da lei do esforço e do trabalho individual, e  não se transforma em instrumento de opressão dos magnatas da economia e do poder [capitalismo], por  consciente dos imperativos da solidariedade humana”. 1
    Não adota o princípio das revoluções por questões menores, porque exclusivamente a evolução é o seu anfiteatro de atividade e de experiência, afastado de todas as guerras pela compreensão dos laços fraternos que reúnem a comunidade universal, “ensina a fraternidade legítima dos homens e das pátrias, das famílias e dos grupos, alargando as concepções da justiça econômica e corrigindo o espírito exaltado das ideologias extremistas”. 2
    Indagado sobre a desigualdade verificada entre as classes sociais, o Espírito Emmanuel esclareceu que “a desigualdade social é o mais elevado testemunho da verdade da reencarnação, mediante a qual cada espírito tem sua posição definida de regeneração e resgate. Nesse caso, consideramos que a pobreza, a miséria, a  guerra, a ignorância, como outras calamidades coletivas, são enfermidades do  organismo social, devido à situação de prova da quase generalidade dos seus  membros. Cessada a causa patogênica com a iluminação espiritual de todos em  Jesus Cristo; a moléstia coletiva estará eliminada dos ambientes humanos”.3  
    Refletindo sobre o ideário comunista, o mentor de Chico Xavier elucida o seguinte: “a concepção igualitária absoluta [comunismo] é um erro grave em qualquer  departamento da vida. A tirania política poderá tentar uma imposição nesse  sentido, mas não passará das espetaculosas uniformizações simbólicas para  efeitos exteriores, porquanto o verdadeiro valor de um homem está no seu  íntimo, onde cada espírito tem sua posição definida pelo próprio esforço”.  4
    Allan Kardec pronuncia que “a desigualdade das riquezas é um dos problemas que em vão se procuram resolver, quando se considera apenas a vida atual. A primeira questão que se apresenta é a seguinte: Por que todos os homens não são igualmente ricos? Por uma razão muito simples: é que não são igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar”.5  Para o Codificador “a pobreza é para uns a prova da paciência e da resignação; a riqueza é para outros a prova da caridade e da abnegação. Razão pela qual o pobre não tem, portanto, motivo para acusar a Providência, nem para invejar os ricos, e estes não o têm para se vangloriarem do que possuem. Se, por outro lado, estes abusam da fortuna, não será através de decretos, nem de leis suntuárias, que se poderá remediar o mal”. 6
    Deus nos outorga a todos uma oportunidade idêntica ante a dinâmica do tempo. Todos temos os direito de conquistar a sabedoria e o amor pelo cumprimento do dever e do entusiasmo individual. Impregnamos o próprio mapa de méritos nas lutas do dia a dia. Sobre as questões proletárias, obviamente elas podem ser resolvidas sem violências, sobretudo quando forem  categoricamente aceitos e aplicados os princípios abençoados do  Evangelho. “Os regulamentos apaixonados, as greves, os decretos unilaterais, as  ideologias revolucionárias, são cataplasmas inexpressivas, complicando a chaga  da coletividade.  Todos os homens são proletários da evolução e nenhum  esforço de boa realização na Terra é indigno do espírito encarnado.  Cada máquina exige uma direção especial, e o mecanismo do mundo requer o  infinito de aptidões e de conhecimentos". 7
    A harmonia da sociedade não virá por decretos, nem de parlamentos que caracterizam sua ação por uma força excessivamente passageira. É desnecessário desviarmos o  tempo com debates inócuos a fim de identificarmos o desengano das teses de Karl Marx. Reafirmamos que seus seguidores (sequer creem em Deus) “sonham com  a igualdade irrestrita das criaturas, sem compreender que, recebendo os  mesmos direitos de trabalho e de aquisição perante Deus [acreditem ou não!], os homens, por suas  próprias ações, são profundamente desiguais entre si, em inteligências, virtude,  compreensão e moralidade”. 8 
    Com magna acuidade o notável Leon Denis proferiu: “O Espiritismo é, ninguém se engane, um dos maiores acontecimentos da história do mundo. Assim hoje, em face das doutrinas religiosas enfraquecidas, petrificadas pelo interesse material, impotentes para esclarecer o Espírito humano, ergueu-se uma filosofia racional, trazendo em si o germe de uma transformação social, um meio de regenerar a Humanidade, de libertá-la dos elementos de decomposição que a esterilizam e enodoam”. 9

    Referências bibliográficas:

    1 Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB,  1977
    2 Idem
    3 Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB,  1999, questão 55
    4 Idem, questão 56
    5 Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVI, item 8, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1990
    6 Idem
    7 Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB,  1999, questão 57
    8 Idem, questão 234
    9 Denis, Leon. Depois da Morte, capitulo 24, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1998

    terça-feira, 22 de julho de 2014

    “VADE RETRO SATANÁS!” SERÁ QUE O RITO DE “EXORCISMO” FUNCIONA? (Jorge Hessen)

    Jorge Hessen
    http://aluznamente.com.br

    Alguns veículos de comunicação noticiaram sobre episódios “diabólicos” ocorridos numa casa localizada na zona rural no interior do Rio Grande do Sul. A filha mais velha do casal apresentou comportamento estranho. A sua mãe informou que o “coisa-ruim” levou a filha para cima da casa e jogou-a para baixo , destruindo parte do telhado da casa”. Disse ainda que "o satã diariamente arremessa pedras no telhado, arrasta os móveis, quebra objetos, abre e fecha as portas e janelas. 
    Convidado pela família, Nelson Júnior Paz, um benzedor da região, garante ter “exorcizado” a jovem. Explicou que "o “demônio” se afastava da menina quando chegava próximo da casa, por isso teve que afastar-se do local por uns instantes para que o “capeta” novamente tomasse conta do corpo da jovem e logo retornou para fazer o “exorcismo”. Nelson perguntou ao “satã” por que ele estava atormentando aquela menina, o “diabo “ dizia que queria a vida dela ou a propriedade de volta.” (1)
    O jornal Correio Braziliense (2) publicou em 03 de julho de 2014 que o Vaticano reconheceu juridicamente a Associação Internacional de Exorcistas (AIE). A notícia foi espalhada pelo jornal L'Osservatore Romano, confirmando que a Congregação para o Clero aprovou os estatutos da associação através de um decreto. O ritual do “exorcismo” foi restaurado pelo papa João Paulo II, “quando a Igreja católica decidiu, depois de quase 400 anos, revisar o texto anterior de 1614 , devido às mudanças realizadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e aos avanços da ciência no campo da mente.(3)
    Será que existem fundamentos coerentes a prática do exorcismo? Consta que no ritual da Igreja romana tão-somente os bispos podem autorizar um sacerdote a fazer “exorcismos”. Segundo relatos, no esconjuro, os "demos" respondem com mentiras às indagações do “exorcista” sobre a identidade e/ou os motivos da subjugação. Amparados no bramido beneditino “vade retro satanás!” os exorcistas exortam os espíritos satânicos a saírem do corpo dos possessos, valendo-se igualmente da invocação do nome de Deus, de Cristo e todos os anjos. Ao fim das extenuantes algazarras e invocações, sempre sob o arrimo da “reza brava”, o resultado poderá aparecer de forma ligeira , sem sustento duradouro. 
    Nos movimentos cristãos pentecostais e neopentecostal, bem como de renovação carismática, há muitas descrições de casos de “exorcismos”. A fórmula utilizada em tais segmentos baseia-se no emprego do jargão "em nome de Jesus” , além da imposição de mãos e ordenação verbal do “exorcista” sobre o “cão” e, num ou noutro caso, o “exorcizado” pode apresentar relativos indícios de “consciência”.
    Narram os evangelistas Marcos e Lucas o seguinte: “um homem que estava na sinagoga possuído por um espírito maligno gritou: "Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Bem sei quem és, és o Santo de Deus! Jesus repreendeu-o, dizendo: Silencia-te sai desse homem. O espírito imundo, agitando-o violentamente e bradando em alta voz, saiu dele. As pessoas ficaram novamente espantadas e perguntaram umas às outras: Que é isto? Uma nova doutrina com autoridade! Ele manda aos próprios espíritos imundos, e eles lhe obedecem!(4)
    Tanto aqui, como noutras narrativas correspondentes, constatamos que Jesus diante dos obsidiados penetrava mentalmente nas causas da sua inquietude e, usando de sua autoridade moral, libertava tanto os obsessores quanto os obsidiados, permitindo-lhes o despertar para a vida animada rumo à recuperação e à pacificação da própria consciência. Entretanto, Jesus não libertava os obsidiados sem lhes impor a intransferível necessidade de renovação íntima, nem expulsava os perseguidores inconscientes sem fornecer-lhes o endereço de Deus.
    Os espíritas compreendem que os tais “demônios”, “capetas”, “coisa-ruim”, “lúcifer”, “diabo”, “satanás”, “satã”, “cão”, “demo”, “besta” etc. no senso comum, não são seres votados por Deus à prática do mal, e sim seres humanos desencarnados que se desequilibraram em atitudes infelizes perante a vida. “Na raiz do problema encontramos a necessidade de considerar os chamados “espíritos das trevas” [demônios] por irmãos verdadeiros, requisitando compreensão e auxílio, a fim de se remanejarem do desajuste para o reequilíbrio neles mesmos.”(5)
    Arriscam alguns teólogos que os “demônios” são mais conhecidos como anjos “caídos do paraíso”. O “anjo caído” mais famoso é o próprio lúcifer. Bem distante do sentido teológico que se confere ao “exorcismo”, o espírita oferece nos centros espíritas a assistência espiritual através da desobsessão para tratamento dos doentes “subjugados” . 
    Considerando a subjugação como os casos mais graves de obsessão, sabemos que as fórmulas de “exorcismo”, ritualizado pelos religiosos não têm qualquer eficácia sobre os espíritos malignos. Os Benfeitores afiançam que “os obsessores riem [caçoam] e se embirram, quando veem alguém tomar isso [exorcismo] a sério.(6) Em razão disso, Allan Kardec assevera que “não há nem palavras sacramentais, nem formas cabalísticas, nem “exorcismos” que tenham a menor influência; quanto mais são maus, mais se riem do terror que inspiram, e da importância que se dá à sua presença; divertem-se em se ouvir chamar diabos e demônios, por isso se dão seriamente os nomes de Asmodée, Astaroth, Lúcifer e outras qualificações infernais aumentando as malícias, ao passo que se retiram quando veem que perdem seu tempo com pessoas que não são seus patetas, e que se limitam a chamar, sobre eles, a misericórdia divina.”(7)
    Se o célebre “exorcismo”, aplicado consoante os rituais das igrejas não funciona , como tratar o processo de subjugação espiritual? Como proferi acima a maioria dos Centros Espíritas dispõe de trabalhos de desobsessão. Embora saibamos que a tarefa de tratamento espiritual não é simples , pois muitas vezes obsedado e obsessor comungam um mesmo estado mental, dificultando a identificação de quem é vítima de quem. 
    Há trabalhos de “desobsessão”, conforme garantem os incautos , que são mais “fortes” e “imediatos”, contudo infelizmente nesses estranhíssimos “tratamentos espirituais” são fixados apenas um imperativo urgente, o afastamento rápido do obsessor. Mas será que esse instantâneo banimento espiritual é possível? Ora, “como rebentar, de um instante para outro, algemas [mentais] seculares forjadas nos compromissos recíprocos da vida em comum?”(8)
    Portanto, são inteiramente inúteis as fórmulas e rituais exteriores para “exorcismos”, o que importa é a autoridade moral do doutrinador. Nesse sentido, a técnica da conversação [doutrinação] com os perseguidores do além estabelece uma das grandes contribuições do Espiritismo para a melhora das relações entre encarnados e desencarnados. Em face disso as reuniões de desobsessão bem orientadas são de grandiosa força revolucionária, por disseminar nas suas sessões o convite amorável do Mestre sobre o amor e o perdão.
    Nos ambientes onde não haja trabalhos específicos de desobsessão, será que pode alguém por si mesmo “afastar” os Espíritos perversos e libertar-se da dominação deles? Obviamente que sim. “Sempre é possível, a quem quer que seja, subtrair-se a um jugo [subjugação], desde que com vontade firme o queira.”(9)Nesse caso através da prece como meio eficiente para a cura da obsessão, Porém, “não basta que alguém murmure algumas palavras, para que obtenha o que deseja. Deus assiste os que obram , não os que se limitam a pedir. É, pois, indispensável que o obsidiado faça, por sua parte, o que se torne necessário para destruir em si mesmo a causa da atração dos maus Espíritos.”(10)

    Referências bibliográficas:


    (1)Disponível em http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/06/casa-e-demolida-apos-exorcismo-e-fenomenos-incomuns-no-rs.html acesso 17/07/2014
    (2)Disponível em http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2014/07/03/interna_mundo,435782/vaticano-reconhece-juridicamente-associacao-internacional-de-exorcistas.shtml acesso 17/07/2014
    (3)Disponível em http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/07/japonesa-morre-apos-beber-muita-agua-em-ritual-de-exorcismo.html acesso 18/07/2014
    (4)Marcos 1:21-28 e Lucas 4:31-371 .
    (5)Xavier Francisco Cândido. Caminhos de Volta, ditado por espíritos diversos, SP: edição GEEM, 1980
    (6)Kardec, Allan. Livros dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB , 2001, questão 477.
    (7)Kardec, Allan. Revista Espírita de maio de 1860, DF: Ed. Edicel, 2001
    (8)XAVIER, F. C. Missionários da Luz, pelo Espírito André Luiz. 8. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1970.
    (9)Kardec, Allan. Livros dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB , 2001, questão 475.

    (10)Kardec, Allan. Livros dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB , 2001, questão 479

    segunda-feira, 7 de julho de 2014

    SEXUALIDADE TEM QUE ESTAR A SERVIÇO DO AMOR, E O AMOR JAMAIS TEM PRESSA (Jorge Hessen)


    Jorge Hessen
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    Na Colômbia, após fugir da casa de seus pais e habitar com um homem de 25 anos, uma garota de 12 anos deu à luz a gêmeos em um hospital da cidade de Ibagué. A Justiça colombiana punirá o pai das gêmeas, que deverá responder pelo crime de abuso sexual de uma menor de 14 anos. Contudo, essa ocorrência não é incomum nas periferias das capitais brasileiras, onde o abuso sexual é uma sinistra realidade.
    No Brasil há casos em que meninas de 10 a 12 anos, frequentadoras dos peculiares bailes funk (ambientes extremamente promíscuos), engravidam. No nordeste há diversos casos de aliciamento de menores, muitas vezes abusadas pelos próprios pais. Obviamente, uma precoce atividade sexual induz a outros graves problemas: prostituição infantil e juvenil, aborto, lesão da autoestima, escravidão sexual, drogadição.
    A gravidez na adolescência é pluricausal e sua etiologia está relacionada a uma série de fatores sociológicos, em face de maior desinformação sobre a sexualidade, desestruturas familiares, carência econômica e ambientes promíscuos. Normalmente, a ausência de apoio e afeto familiar conduz a adolescente para os braços do “sexo”, do péssimo rendimento escolar, da incerteza do futuro, o que pode induzir a busca da maternidade precoce como meio de arranjar um afeto e talvez uma família própria, reafirmando assim o seu papel de mulher, embora que na flor da idade e sob o tacão da imaturidade.
    A sociedade está lidando com transformações inquietantes em sua estrutura, inclusive asilando sem constrangimento a liberalidade sexual na adolescência. Jamais a juventude teve tantas notícias quanto hoje. Existem livros, revistas, músicas, televisão, rádio, imprensa, Internet e uma lista imensa de canais de informação. Há espaços exclusivos para os jovens discutirem sobre sexualidade e para receber “orientação”: suplementos de jornais, revistas, programas televisivos ou até mesmo colunas próprias naqueles destinados ao público em geral. Contam-se hoje nas bancas de jornal dezenas de publicações eróticas destinadas ao público jovem.
    Estreando mais cedo na prática sexual e estando mais suscetíveis às influências dos adultos, as adolescentes são vítimas das induções psicológicas do momento. É bombardeada pelo mau exemplo dos pais, pela literatura de estímulo à erótica, pelas revistas pornográficas, pelo violento negócio do sexo e da prostituição, pelas festinhas e “baladas” cada dia mais libertinas, pela utilização de drogas e álcool, pela proliferação dos disque-sexo, pelo uso da Internet como busca de fantasia sexual, pelas fitas de vídeo, Cd’s, Dvd’s facilmente locáveis, ao interesse comercial e de exploração da lucrativa faixa de público consumidor dos filmes para “adultos”.
    Nessa conjuntura, o trágico é que a educação da adolescente está sendo entregue à mídia e ao consumo. Há extremos apelos e sensualismos, desde filmes (adultos), novelas e programas para adolescentes destacando o sexo sem amor, livros e manuais ensinando técnicas de conquista e prazer, semelhando a livros informando a caçar e cozinhar, com tal frieza e hipocrisia que chega a envergonhar os que valorizam o sentimento e a civilização. Falar em valores da família chega a ser arremedo.
    Nas inversões dos valores morais, a prática do sexo inconsequente passou a ser uma compulsão social, e os que buscam pensar e agir diferente do contexto são por vezes discriminados pelos outros jovens. O sexo hoje está envilecido e os valores vigentes assinalam para comportamento sexual irresponsável, prazer sem preço, promiscuidade, institucionalização do coito descompromissado durante o namoro ou no “ficar”, satisfação de fantasias e infidelidade. Tudo isso resvala repetidamente na prostituição feminina, masculina e homossexual.
    Uma adolescente que engravida precocemente é, sem dúvida, uma  pessoa cujos direitos foram violados e cujo futuro fica comprometido. A gravidez precoce ecoa a indigência e a repressão de cúmplices (família e comunidade). Não obstante esse caótico cenário há muitas adolescentes que têm atividade religiosa oferecendo um conjunto de valores morais que as encoraja a desenvolver comportamento sexual equilibrado. De ordinário, uma adolescente evangelizada, fiel ao Cristo (independente do rótulo religioso que abrace), é, quase sempre, bastante rígida no que diz respeito à abstenção da prática sexual pré-marital.
    O Espiritismo esclarece que nos comportamentos humanos há invariavelmente uma legião de espíritos convivendo e participando de cada ação de alguém, seja no júbilo do dever cumprido e da alegria sadia, seja na perversão dos desejos e das atitudes. Se um adolescente faz da sexualidade tão somente instrumento de “delícia”, conectará com espíritos erotizados nas mesmas condições e muitos deles almejando reencarnar, induzindo a adolescente a engravidar precocemente.
    Óbvio que de lodaçais pútridos podemos colher belos lírios, como marca da natureza de que nada é maléfico e negativo, se temos no coração o fanal e o encanto do Evangelho. Na condição de pais, sejamos equilibrados, acudindo as fraquezas de nossos filhinhos sem cultivar-lhes a insensatez, marchando com eles na senda da renúncia e do sacrifício para reconstruir-lhes o caminho da jovialidade, sem necessitar espezinhar o jardim do próximo.
    Não podemos deixá-los órfãos de educação sexual. Jamais acreditar que tais situações somente ocorre com a filha do vizinho, ou, se achar que pode acontecer com a própria filha, tentar resolver o problema com repressões, violências verbais, brutalidade e até expulsão de casa. A solução está na educação e no exemplo dentro do lar. Os pais não podem abandonar seus filhos ao aprendizado no mundo. Quando mais necessitam de esclarecimento e orientação quanto à própria sexualidade, não devem permitir que eles aprendam tudo na escola, na rua, na mídia, nos livros, com os outros.
    Conversar com os filhos desde os quatro anos, sem esperar pelos 12 ou 13 anos. Os frutos plantados na infância serão colhidos na adolescência. E assuntos sobre sexualidade devem começar a ser discutidos desde cedo. Afinal, não será de um dia para o outro que uma criança se tornará adolescente.
    Não esqueçamos que recebemos nossos filhos hoje, no mesmo ponto em que os deixamos no passado. Elucidam-nos os Benfeitores que a filha detida nos desregramentos do coração é a jovem que, noutro tempo, induzimos ao desequilíbrio e à crueldade. Mãos à obra! Sem afetação puritana, expliquemos aos filhos que a sexualidade tem que estar a serviço do amor, e o amor jamais tem pressa. Esclareçamos que somos livres para buscar qualquer sensação, porém somos escravos dos seus efeitos.
    Empreguemos sempre as orientações espíritas, porém o melhor remédio será sempre o nosso exemplo no lar. Lembremos que pais equilibrados produzem lares equilibrados; lares equilibrados resultam em filhos equilibrados, mesmo que resvalem em algumas compreensíveis falhas humanas. Urge iluminá-los com as normas libertadoras do Evangelho de Jesus. Convidá-los a participar de mocidades espíritas. Jamais proibi-los ou obrigá-los à abstinência ou a prática, porém estimular-lhes a educação, o controle e a responsabilidade, conforme instrui Emmanuel no prefácio do livro  “Vida e Sexo”.
    Enfim, elucidar-lhes que sexo é energia divina, função criadora, transferência de cargas magnéticas, troca de sentimentos, reencontros, maternidade sagrada, e ressaltar-lhes o valor da oração, que será auxílio constante na direção dos desejos e sentimentos. A energia sexual deve ser administrada com bom senso e maturidade, conscientes dos riscos que acarreta qualquer inobservância das regras do amor. Todavia, se ocorrer a gravidez inesperada da filha adolescente, auxiliá-la, amparando-a para que assuma a obrigação que carreou para si, dando condições para que inicie uma vida a dois e colha os frutos das suas experiências.

    sexta-feira, 27 de junho de 2014

    SÓ APÓS MUITAS GERAÇÕES...(Jorge Hessen)

    Jorge Hessen
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    Durante a Revolução Francesa, a Comissão de Segurança Pública deu permissão para utilização de um castelo nos arredores de Paris como um curtume a fim de processar couro de pele dos corpos de pessoas executadas pela guilhotina. Na época, um grande número de cavalheiros usavam calças e botas da moda produzidas a partir da matéria-prima (pele humana) considerada flexível e de alta qualidade.
    Faziam-se também coletes durante esse reinado do terror na França do século XVIII. À época, Saint-Just cresceu para se tornar um líder político e bárbaro comandante militar. Há uma história de que Saint-Just estava fazendo umas investidas em uma bela mulher, mas teria sido completamente desprezado. Em um dia de fúria, ele prendeu e matou a dama, sendo sua pele removida por um cirurgião, curtida e transformada em um colete da moda, que ele usava todos os dias.
    Recentemente, cientistas da universidade de Harvard, nos Estados Unidos, confirmaram por meio de análises que o livro "Des destinées de l'ame", do escritor francês Arsène Houssaye, foi encadernado com pele humana pelo médico Ludovic Bouland. (1) O livro faz parte do acervo da biblioteca Houghton, dessa universidade. Entre três títulos testados, esse foi o único livro feito com a técnica conhecida como bibliopegia antropodérmica (encadernamento com pele humana). (2)
    Caso semelhante está presente na coleção da biblioteca Athenaeum, de Boston, onde se encontra um livro intitulado Hic Liber Waltonis Cute Est Compactus, encadernado com a pele de George Walton, um famoso assaltante do século XIX que morreu de tuberculose na prisão em 1837. George pediu que, após sua morte, sua pele fosse utilizada para encapar um volume de sua autobiografia, que seria apresentada a John Fenno, ex-vítima de roubo que teria bravamente sobrevivido após ter sido baleado. O livro permaneceu  com a família de Fenno até ser doado à biblioteca.
    Ante tais estranhas ocorrências, somos convidados a elucubrar sobre a linha limítrofe entre a racionalidade e a moralidade humana. Atualmente discorre-se bastante sobre o progresso social adquirido; contudo, o que se entende por progresso? Pode algumas vezes soar como um vocábulo vazio que reverbera nas barbaridades descritas acima. Entretanto, há 40 anos o homem pisou na Lua, dando início a eventos posteriores que evidenciaram o progresso da Ciência, no campo das descobertas espaciais. Porém, há que se observar o atraso moral do homem na Terra, apesar de todo o progresso científico-material realizado. Sabemos que o progresso material caminha na frente, ao passo que o crescimento moral vai sempre marchando em segundo plano.
    Raciocinemos um pouco mais sobre isso. Elucida a Doutrina dos Espíritos que em delicado “dégradée” evolutivo o homem vai gradualmente vivenciando suas experiências nos diversos graus de desenvolvimento. Ante as diretrizes da Lei de Evolução, o “homem passa palmo a palmo da barbárie à civilização moral”. (3) Explicam os Espíritos que “o senso moral, mesmo quando não está desenvolvido, não está ausente, porque existe, em princípio, em todos os homens; é esse senso moral que os transforma mais tarde em seres bons e humanos. Ele existe no selvagem como o princípio do aroma no botão de rosa de uma flor que ainda não se abriu”. (5)
    Estamos constantemente diante dos paradoxos existenciais. Como compreender a experiência de  criaturas bestiais, quase selvagens, no seio de seres ditos civilizados? “Da mesma maneira que numa árvore carregada de bons frutos existem temporãos. Elas são selvagens que só têm da civilização a aparência, lobos extraviados em meio de cordeiros. Os Espíritos de uma ordem inferior, muito atrasados, podem encarnar-se entre homens adiantados com a esperança de também se adiantarem; mas, se a prova for muito pesada, a natureza primitiva reage”. (5)
    Este é um entendimento coerente, quando compreendemos a bênção da reencarnação. Como se observa na elucidação dos Luminares do além: “A Humanidade progride. Esses homens dominados pelo instinto do mal, que se encontram deslocados entre os homens de bem, desaparecerão pouco a pouco como o mau grão é separado do bom quando joeirado. Mas renascerão com outro invólucro. Então, com mais experiência, compreenderão melhor o bem e o mal. O exemplo temos nas plantas e nos animais que o homem aprendeu como aperfeiçoar, desenvolvendo-lhes qualidades novas. Só após muitas gerações que o aperfeiçoamento se torna mais completo. Esta é a imagem das diversas existências do homem”. (6)
    É dessa forma que evoluímos – lentamente, renascendo e (re)morrendo nos diversos estágios dos mundos, consoante categorização proposta pelo lente lionês, designando-os de mundos “primitivos”, de “expiação e provas” (atualmente na Terra), de “regeneração”, “ditosos e divinos” até chegarmos, após milênios, ao mundo dos venturosos, onde tão-somente impera o bem e tudo é movido por anseios sublimes e todos os sentimentos são depurados.



    Notas e referências bibliográficas:

    (1)            No livro há uma dedicatória manuscrita por Ludovic Bouland, afirmando que a pele de uma mulher com problemas mentais, morta por um derrame, havia sido usada na capa.
    (2)            Disponível em http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/06/04/livro-frances-tem-capa-feita-com-pele-humana-afirmam-cientistas-de-harvard.htm acesso 20/06/2014
    (3)            Kardec, Allan. O Evangelho seg. o Espiritismo. 129. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. XXV, item 2.
    (4)            Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio [de Janeiro]: Ed. FEB, 2009, questão  754
    (5)            Idem questão  755
    (6)            Idem questão 756

    segunda-feira, 23 de junho de 2014

    ESTÁ ORDENADO QUE O HOMEM MORRA E RENASÇA VÁRIAS VEZES (Jorge Hessen)

    Jorge Hessen
    http://aluznamente.com.br

    No diálogo com o doutor Nicodemos, o Mestre de Nazaré foi muito objetivo quando disse: “Necessário vos é nascer de novo”. (1) Não obstante a lógica da reencarnação, ainda hoje, pastores e “bispos” evangélicos (ou protestantes), o clero católico, os reverendos anglicanos, líderes da igreja ortodoxa, teólogos “independentes” e outros teólogos recusam a Pluralidade das existências, fundamentados principalmente no “versículo 27 inserto no capítulo 9, constante na intrigante epístola conferida a Paulo, dirigida aos hebreus que narra: "aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo". (2) Pronto!... Caso encerrado. Está definitivamente decretada a “morte” da reencarnação entre os homens.
    A propósito do célebre versículo 27 é óbvio que o homem carnal morre só uma vez. Quem é enterrado (ou cremado), jamais se levantará, parafraseando a narrativa de “Jó” (3) contida no capítulo7, versículo 9. Mas espiritualmente somos indestrutíveis, portanto imortais. Somos espíritos e renascemos para dar vida ao corpo perecível. E precisamos ponderar que Jesus em nenhum momento atribui para a vida física um valor decisivo para toda existência posterior à desencarnação.
    Ao analisar com mais atenção a carta aos hebreus, perceberemos que não é Paulo de Tarso o seu autor. Desvia-se do estilo do Apóstolo dos Gentios. Falta-lhe o habitual cabeçalho localizável nas 13 cartas paulinas e ademais somente no último capítulo contém assunto à guisa de epístola. Orígenes, o maior escritor sobre as escrituras “sagradas”, da Idade Antiga, depois de expor os vários elementos e juízos sobre a questão da autoria da carta aos hebreus, concluiu: “para expressar o meu parecer, diria que os pensamentos são do Apóstolo [Paulo], mas... quem a redigiu só Deus o sabe”.
    Diversos doutores da igreja, como Irineu de Lyon e Cipriano de Cartago, jamais aceitaram a carta aos hebreus. Tertuliano, Gregório de Elvira atribuíram-lhe autoria a “Barnabé”. Finalmente, Jerônimo, no Século V, escreve que “o costume dos latinos não admite a epístola aos hebreus entre as canônicas”. (4) Os teólogos e doutores da igreja só confirmaram tal carta aos hebreus a partir do Concílio de Trento, no Século XVI, portanto 1.600 anos após ter sido escrita.
    Como se observa, até hoje o autor permanece desconhecido, mas e quanto aos destinatários? Sabe-se que tal missiva era destinada aos cristãos oriundos do judaísmo, pois é inteiramente impregnada de citações e alusões aos livros “sagrados” do Antigo Testamento. “A língua em que a epístola foi redigida afasta-nos da Judéia, na qual se falava o aramaico. Provavelmente a carta foi destinada a judeus-cristãos de Jerusalém refugiados na Fenícia, Chipre e Antioquia e noutras cidades helenísticas da costa mediterrânea.”. (5)
    Os oponentes da reencarnação dogmatizaram a lição do “nascer de novo”, justificando a “ressurreição” da filha de Jairo (6),do filho da viúva de Naim (7) e do Lázaro (8). Porém, se tais personagens "ressuscitaram", como sói afiançarem os dogmáticos, como ficaria a evocação do “encantado” versículo 27 da carta aos hebreus para negar a reencarnação"? Nesse caso, basta perceber que a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro "ressuscitados" (segundo a visão da fé senil), não teriam morrido uma só vez, porquanto após a “ressurreição” todos três morreram novamente, ou será que permanecem vivos até hoje? Será que se encontram escondidinhos em Qumrãn, nas ruínas ao pé das montanhas do deserto da Judéia, às margens do Mar Morto, não muito além de Jericó? Huumm!!!
    A bem da verdade, as personagens “ressuscitadas” por Jesus sequer estavam mortas, tão-somente estavam acometidas de catalepsia patológica (9). E mais: o Mestre asseverou que a verdade libertaria o homem, logicamente se a verdade (reencarnação) está sendo negada aos cristãos, fica evidente que os “sabe-tudo das escrituras sagradas” não se encontram livres, ou o que é pior, estão enceguecidos na mais absoluta estupidez. Portanto, são cegos que guiam outros cegos em direção ao despenhadeiro da ignorância.
    Avaliemos as narrativas a seguir e cientificaremos que ao contrário do versículo 27 aos hebreus, está ordenado que o homem morra e renasça várias vezes. Notemos: “Após a transfiguração de Jesus, no Monte Tabor, os discípulos do Mestre o interrogam: Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias? - Jesus lhes respondeu: É Verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve [João já havia sido decapitado]. É assim que farão sofrer o Filho do Homem. Então seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara.”. (10) Aqui não há margens para inócuas digressões teológicas. Os discípulos compreenderam por si próprios que João Batista (filho de Isabel e primo de Jesus) era o profeta Elias reencarnado.
    Ora, “a ideia de que João Batista era Elias e que os profetas podiam reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos. Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, ele a sanciona com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária, quando diz: "Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo." E insiste, acrescentando: Não te admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo.”. (11)
    O livro dos Reis anota: “Era um homem vestido de pelos, e com os lombos cingidos dum cinto de couro. Então disse ele: É Elias.”. (12) O profeta Malaquias narra: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.”. (13) O evangelista Lucas que registra: “Apareceu-lhe, então, um anjo do Senhor, em pé à direita do altar do incenso. E Zacarias [progenitor de João Batista], vendo-o, ficou turbado, e o temor o assaltou. Mas o anjo lhe disse: Não temais, Zacarias; porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João;  irá adiante dele no espírito e poder de Elias [reencarnado].”. (14)
    O jovem evangelista Marcos assinala: “Então lhe perguntaram: Por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro? Respondeu-lhes Jesus: Na verdade Elias havia de vir primeiro, a restaurar todas as coisas; e como é que está escrito acerca do Filho do homem que ele deva padecer muito a ser aviltado? Digo-vos, porém, que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo quanto quiseram, como dele está escrito.” (15)
    Mateus mais uma vez anota: “E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o tomam de assalto. Pois todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este (João Batista) o Elias que havia de vir [pela reencarnação]. Quem tem ouvidos, ouça.”. (16) "E Jesus falou aos seus discípulos, dizendo: Que dizem os homens que é o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros ainda que é Jeremias ou algum dos profetas.". (17)
    Confirmação mais clara que as declarações de Jesus acima é impossível. O Mestre, na sua excelsitude, sabia da reencanação antecedente do filho de Zacarias e Isabel, e explicou que as pessoas fizeram o que quiseram com Elias [Joao Batista], mas que não o reconheceram, e também não poderiam, pois o profeta Elias estava reencarnado no corpo de João Batista. Enfim, não é tão difícil assim compreender a realidade da reencarnação; basta recorrer aos episódios sucedidos à época de Jesus, seja diante de Nicodemos, seja a confirmação do renascimento de Elias Joao Batista e até mesmo o evento do Cego de Nascença nas cercanias da piscina de Siloé.

    Referências bibliográficas:
    (1) João 3
    (2) Hebreus  9
    (3) Jó 7
    (4) Soares, Matos. Tradução da Vulgata, publicada  em São Paulo: Edições Paulinas, 1989
    (5)Idem
    (6) Mateus.9
    (7) Lucas.7
    (8) João.11
    (9) No passado existiram casos de pessoas que foram enterradas vivas e na verdade estavam passando pela catalepsia patológica. Muitos especialistas, contudo, afirmam que isso não seria possível nos dias de hoje, pois já existem recursos tecnológicos que, quando corretamente utilizados, não falham ao definir os sinais vitais e permitem atestar o óbito com precisão.
    (10) Kardec, Allan.  Evangelho Segundo o Espiritismo, RJ: Ed FEB, 2001, Cap IV
    (11) Idem
    (12) 2 Reis 1
    (13) Malaquias 4
    (14) Lucas 1
    (15) Marcos 9
    (16) Mateus 11
    (17) Mateus 15

    quarta-feira, 11 de junho de 2014

    O SER HUMANO É MONOGÂMICO. SOMOS SERES HUMANOS, LOGO, SOMOS MONOGÂMICOS (Jorge Hessen)

    Jorge Hessen
    http://aluznamente.com.br

    Com base no “direito consuetudinário” (1), Uhuru Kenyatta, presidente do Quênia, sancionou uma lei que legaliza a poligamia no país. A Poligamia, mormente a masculina, é um costume aceito em alguns países, cujas leis e religiões permitem. Em algumas sociedades mais tradicionais da África Subsaariana, por exemplo, a prática é comum - segundo o relatório Social and ethical aspects of assisted conception in anglophone sub- Saharan África, da Organização Mundial de Saúde. O estudo da OMS afirma que, mais do que ser aceita, a poligamia é até mesmo incentivada entre os homens nesses lugares. (2) A despeito de a poligamia ser crime nos EUA, um país dito “desenvolvido”, existem milhares e milhares de americanos vivendo em situação familiar de poligamia, notadamente os mórmons.
    Os registros bíblicos mencionam Jacó (Israel), um bígamo, que gerou muitos filhos formadores das tradicionais doze tribos do “povo escolhido”. Os velhos textos narram sobre os intocáveis ancestrais dos hebreus que coabitaram com mais de uma mulher. Abraão (bígamo), Moisés (bígamo), David (polígamo), Salomão, pasme! Coabitou setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas sob o ponto de vista cristão, a poligamia foi, é e sempre será incabível.
    Naquelas recuadas eras, como observamos, a poligamia era um costume “justificável” e natural. Não é, portanto, de se estranhar que atualmente a concupiscência e a devassidão sejam reminiscências dessas poligamias da antiguidade, alterando tão somente o panorama sócio cultural. O Alcorão, por exemplo, permite quatro esposas para cada homem; entretanto, o seu autor Maomé conservou 16 casamentos simultâneos.
    A monogamia está contra as leis da natureza? Ainda hoje há os que defendem a tese de que a maior parte dos animais não são monogâmicos, assim, os maiores entraves são as regras morais que impedem de o homem ser poligâmico. Desta forma, será mesmo que a monogamia é um artifício infligido pela sociedade? Será que somos “naturalmente” poligâmicos? É óbvio que não.
    Em que pese nosso respeito às outras crenças, culturas e opiniões, nós espíritas concebemos que o "instinto sexual (...) a desvairar-se na poligamia, traça, para cada um [independentemente do credo religioso ou juízo], largo roteiro de aprendizagem a que não escaparemos pela matemática do destino que nós mesmos criamos." (3)
    Obviamente a poligamia é irracional e promíscua. Nela, “não há afeição real, há apenas sensualidade.". (4) A rigor, consoante os Códigos Divinos, ao danificarmos o altar interior do(a) parceiro(a), saibamos que estamos despedaçando a nós mesmos, através da consciência culpada. Nesse sentido, Emmanuel alude que "conferir pretensa legitimidade às relações sexuais irresponsáveis seria tratar 'consciências' quais se fossem 'coisas', e, se as próprias coisas, na condição de objetos, reclamam respeito, que se dirá do acatamento devido à consciência de cada um?". (5)
    À medida que a individualidade evolui, passa a compreender que a energia sexual "envolve o impositivo de discernimento e responsabilidade em sua aplicação, e que por isso mesmo deve estar controlada por valores morais que lhe garantam o emprego digno, seja na criação de formas físicas, asseguradora da família, ou na criação de obras beneméritas da sensibilidade e da cultura para a reprodução e extensão do progresso e da experiência, da beleza e do amor, na evolução e burilamento da vida no Planeta.". (6)
    A poligamia é uma lei humana, cuja abolição marca um progresso social e o casamento, segundo as vistas de Deus, deve fundar-se na afeição dos seres que se unem. "Se a poligamia estivesse de acordo com a lei natural deveria ser universal, o que, entretanto, seria materialmente impossível, em virtude da igualdade numérica dos sexos. A poligamia deve ser considerada como um uso ou uma legislação particular, apropriada a certos costumes e que o aperfeiçoamento social fará desaparecer pouco a pouco.". (7) Até porque, através da poligamia, o espírito assinala, a si próprio, longa marcha em existências e mais existências sucessivas de reparação e aprendizagem, em cujo transcurso adquire a necessária disciplina do seu mundo afetivo e emotivo.
    A monogamia é o clima espontâneo do ser humano, de vez que "dentro dela realiza, naturalmente, com a alma eleita de suas aspirações a união ideal do raciocínio e do sentimento, com a perfeita associação dos recursos ativos e passivos, na constituição do binário de forças, capaz de criar não apenas formas físicas, para a encarnação de outras almas na Terra, mas também as grandes obras do coração e da inteligência, suscitando a extensão da beleza e do amor, da sabedoria e da glória espiritual que vertem, constantes, da Criação Divina.". (8)
    Portanto, a ordem natural e inerente à espécie humana é, incontestavelmente, a monogamia, visto que, tendo por base a união constante dos cônjuges, permite que se estabeleça entre ambos uma estreita solidariedade, não só nas horas de regozijo como nos momentos difíceis e dolorosos. O casamento monogâmico é o instituto que melhor satisfaz aos planos do Criador, no que tange a preparar a família para uma convivência pacífica, alegre e fraterna, estados esses que hão de estender-se, no porvir, a toda prole mundial.


    Referências bibliográficas:

    (1)            No direito consuetudinário, as leis não precisam necessariamente estar num papel ou serem sancionadas ou promulgadas. Os costumes transformam-se nas leis.
    (2)            Relatório Anual de 2007 Organização Mundial de Saúde
    (3)            Xavier, Francisco Cândido, Vieira Waldo. Evolução em Dois Mundos, cap. XVII, Ditado pelo espírito André Luiz/, RJ: Ed. FEB, 2000
    (4)            Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000, Comentário de Kardec: questão 701
    (5)            Xavier , Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001
    (6)            Idem
    (7)            Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000, Comentário de Kardec: questão 701
    (8)            Evolução em Dois Mundos, XVII, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB